Uma porção de tintas
Há algum tempo tenho me empenhado em perceber o meu passado. E tenho escrito bastante sobre o assunto - talvez para me prevenir da senilidade.
Nesta conversa comigo mesmo, descobri que assunto puxa assunto. Minha memória é prodigiosa e, quando ela falha, frequentemente, eu preencho as lacunas com tintas, com uma porção de tintas.
Ando procurando amigos, pesquisando obras, buscando notícias e fatos. E fotografando muito (mas isto já é outra história).
O que motivou este post
Após uma busca rotineira na internet, encontrei uma nota no Zine Cultural sobre o livro "Porção de Tintas", de Márcia Carrano, lançado em outubro de 2003. Tive um sobressalto. Era uma notícia recente. Uma boa nova! Eu poderia seguir esta pista. E foi o que fiz.
Entrei em contato com o colunista Celso Noronha que, bastante solícito, repassou o meu e-mail para a FUNALFA, editora do livro.
No mesmo dia, a Sra. Maria Barral, da Assessoria de Imprensa da Funalfa (Fundação Cultural Alfredo Ferreira Lage), entrou em contato comigo e me enviou o livro.
Recebi a jóia na sexta-feira à noite.
No sábado, já relia alguns contos.
O livro
O texto de Márcia Carrano é leve e intenso. São histórias corriqueiras, mas de grande significado, que trazem à superfície sentimentos humanos quase nunca percebidos.
Primeiro me deliciei com o conto que dá título ao livro. Depois me encantei com "Natal de barro", "Imprópria para consumo", "Por uma questão de roubo" e "Traindo e retraindo". Quando assume a visão da criança em "E o medo se fez...", "Primeiro dia", Deixe a boneca com ela, filha!", "Rã-cálcio", "Apenas um estojo", é perfeita. Mas o que não me sai da cabeça é a história de Gravataldo, uma crítica bem humorada e profunda, uma visão bastante atual da sociedade.
Acho que o sonho de todo escritor é escrever com esta leveza e profundidade.
Em cada conto, em cada canto, deixa o seu recado. Tem gosto de quero mais.
Eu recomendo, muito.
A autora
Márcia Carrano foi minha professora no Colégio Cataguases há alguns anos. Depois, mudou-se para Juiz de Fora, onde (presumo) reside.
Na minha lembrança (e imaginação) vejo-a pilotando um maverick a duzentos por hora pela cidade, descendo o morro do colégio com uma fome de anteontem - adaptada de uma frase de Chico Buarque que, também, estudou no Colégio Cataguases.
Tinha uma didática excelente e fazia a gramática suportável. Dava muita importância à redação e sabia, como ninguém, aliar a teoria à prática.
Lembro-me que, em algumas de suas aulas, era comum colocar uma música instrumental (clássica), distribuir folhas de papel ofício de cor amarela (ainda me pergunto o porque - será que era amarela mesmo?) e nos incentivar a escrever tudo o que nos vinha à cabeça, sem regras nem rédeas.
Certa vez, provavelmente após uma destas "sessões" criativas, tive a audácia de lhe mostrar um poema. Pois bem, um pequeno descuido na conjugação do verbo compor estragou a minha rima, arruinou o meu poema e demoliu a minha carreira literária.
A sua correção me causou um desgosto imenso e uma vergonha insuportável. Claro que não parei de escrever, mas, cada vez mais, engavetava minhas anotações.
Como vocês podem ver, a sua crítica, na época, devastadora para um aluno aplicado, não me tirou o gosto de escrever.
E é óbvio que nunca almejei uma carreira literária. Foi apenas um borrão de tinta, colorindo minha fantasia.
Agradecimento
Gostaria de deixar registrado a minha gratidão a Celso Noronha do Zine Cultural e a Maria Barral da Funalfa, sem os quais este momento de prazer não seria possível.